Conhecida pelo carinho com as crianças, funcionária arrisca até cinco anos de prisão após esquecer menina de 18 meses no carro

A morte da menina de 18 meses esquecida no carro continua a levantar várias questões. Pode ver mais aqui. A funcionária responsável pelo transporte de crianças do Colégio Mestre Cuco, em Almada, poderá responder pelo crime de homicídio por negligência, enquanto a Polícia Judiciária procura esclarecer como foi possível que a ausência da criança passasse despercebida durante cerca de sete horas.
Investigação centra-se nas falhas dos procedimentos da creche
Além do apuramento de responsabilidades, a tragédia voltou também a levantar dúvidas sobre os mecanismos de controlo da creche.
Na opinião de Paulo Borges, morador na mesma rua da creche, o sucedido dificilmente poderá ser explicado apenas por um erro humano. “Isto só pode ter sido uma falha de processos, não só de uma pessoa. Uma criança estar esquecida sete horas não pode ser só de uma pessoa”, afirmou.
Já do ponto de vista jurídico, a advogada Suzana Garcia considera que os factos poderão configurar um crime de homicídio por negligência. “Isto é um crime manifestamente de homicídio por negligência cuja pena vai até cinco anos”, explicou.
Como tudo aconteceu no dia da tragédia
Tudo aconteceu na manhã de quarta-feira, quando Sofia iniciou o percurso habitual até ao Colégio Mestre Cuco, onde deveria ser deixada pela auxiliar responsável pelo transporte das crianças. No entanto, por razões que continuam por esclarecer, a menina nunca chegou a sair da viatura, que permaneceu estacionada na Avenida do Cristo Rei, em Almada.
Durante cerca de sete horas, a menina de 18 meses permaneceu presa na cadeira auto, no interior do automóvel, num dia em que as temperaturas rondaram os 30 graus, segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA).
A ausência da menina só foi detetada quando a mãe chegou à creche para ir buscar a filha. Foi nesse momento que se percebeu que Sofia nunca tinha dado entrada no estabelecimento. Apesar de o Colégio Mestre Cuco recorrer a uma aplicação para registar a entrada e a saída das crianças, o sistema não permitiu detetar que a menina de 18 meses nunca chegou a entrar no estabelecimento.
Perante essa constatação, responsáveis da instituição dirigiram-se à viatura, onde a menina acabou por ser encontrada ainda presa na cadeira auto. O vidro do automóvel chegou a ser partido para facilitar a entrada de ar.
O alerta para uma criança em paragem cardiorrespiratória foi dado às 15h53. O Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) mobilizou os Bombeiros Voluntários de Cacilhas, uma Viatura Médica de Emergência e Reanimação (VMER) e a Unidade Móvel de Intervenção Psicológica de Emergência (UMIPE).
Em comunicado, o Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) adianta que “À chegada ao local, foram iniciadas de imediato manobras de reanimação. Apesar dos esforços das equipas, não foi possível reverter a situação, tendo o óbito sido verificado no local”.
Quem conhece “Kaká” descreve uma funcionária dedicada
Enquanto a investigação prossegue, continuam também a surgir testemunhos de quem conhecia a funcionária responsável pelo transporte das crianças.
Fernanda Ramos, avó de duas crianças que frequentam o Colégio Mestre Cuco há cerca de três anos, contou à CNN Portugal que a funcionária era acarinhada pelos mais pequenos. “Carinhosamente as crianças chamam-lhe Kaká. É extremamente cuidadosa, dócil…todas elas [funcionárias da creche] são”.
A psicóloga Melanie Tavares sublinhou que situações como esta tornam o processo de luto particularmente difícil. “Quando nós estamos mediante uma situação destas, em que existe uma culpa, independentemente de intencional ou não […] é muitíssimo mais difícil” superar o luto.
Além da investigação em curso, o Colégio Mestre Cuco reagiu oficialmente à tragédia. Em comunicado, afirmou que “não existem palavras” capazes de traduzir a dimensão da “perda irreparável” dos pais. A instituição esclareceu ainda que “a diretora do colégio encontra-se a acompanhar a situação […] colaborando com as entidades competentes no apuramento rigoroso de todos os factos”.
Cabe agora à Polícia Judiciária esclarecer todas as circunstâncias que permitiram que a criança permanecesse durante horas no interior da viatura sem que a sua ausência fosse detetada.






