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Marcelo Rebelo de Sousa: uma década de afetos, polémicas e protagonismo político em Belém

A palavra tédio dificilmente entrará no vocabulário político associado a Marcelo Rebelo de Sousa. Ao fim de dez anos intensos em Belém, o Chefe de Estado prepara-se para deixar o cargo a António José Seguro, encerrando uma presidência que ficará para a história pela singularidade do estilo e pela intensidade mediática. Estratega por natureza, Marcelo combinou proximidade popular com capacidade de intervenção política, apresentando-se como garante da estabilidade institucional — ainda que, em momentos decisivos, não tenha hesitado em exercer pressão sobre o Governo, como sucedeu após a gestão polémica dos incêndios de 2017, quando exigiu responsabilidades ao executivo liderado por António Costa.

Ao longo de uma década, o Presidente construiu uma imagem pública inconfundível. Tornou-se o “Presidente dos afetos”, um líder marcado por gestos espontâneos, cumprimentos efusivos e uma disponibilidade permanente para o contacto direto com os cidadãos. O epíteto de “rei das selfies” não surgiu por acaso: milhares de portugueses guardam fotografias com o Chefe de Estado, captadas em visitas oficiais, passeios informais ou até em praias do Algarve, onde se tornou habitual vê-lo mergulhar ou nadar em águas abertas, muitas vezes para apreensão da sua equipa de segurança. Um dos episódios mais mediáticos ocorreu quando resgatou duas jovens em dificuldades no mar, gesto que rapidamente se tornou viral e reforçou a sua imagem de proximidade e ação imediata.

O estilo irreverente — descrito por amigos como de “traquinice quase infantil” — levou-o frequentemente a quebrar o protocolo e a protagonizar momentos mediáticos inesperados, desde cumprimentos particularmente vigorosos a líderes internacionais até interações espontâneas em eventos públicos. Apesar do lado descontraído, Marcelo conseguiu manter um período prolongado de estabilidade política, sustentando uma convivência institucional complexa com governos de diferentes composições. A relação com António Costa foi marcada por cooperação e tensão, sobretudo em momentos críticos como a tragédia dos incêndios de 2017, quando o Presidente assumiu um papel interventivo e visível no terreno, reforçando a sua imagem de líder próximo das populações.

No entanto, a presidência não ficou imune a polémicas. O chamado “caso das gémeas” revelou-se o episódio mais sensível do seu mandato e marcou o fim do que muitos designavam como “Primavera Marcelista”. O escândalo, envolvendo suspeitas de favorecimento no acesso a tratamento médico em Portugal para duas crianças brasileiras e ligações ao seu filho, provocou um profundo abalo pessoal e político, culminando no corte de relações familiares e num impacto significativo na reputação do Presidente. A controvérsia somou-se a outras declarações polémicas — como as relacionadas com reparações históricas do período colonial ou posições sobre conflitos internacionais — que geraram críticas internas e externas.

Ainda assim, o balanço político da década de Marcelo Rebelo de Sousa é inseparável da sua personalidade intensa e do seu instinto político apurado. Entre gestos de afeto e decisões estratégicas, soube usar a popularidade como instrumento de influência, mantendo uma relação direta com os cidadãos e afirmando-se como figura central em momentos de crise governativa, dissoluções parlamentares e mudanças de ciclo político. Ao abandonar Belém, deixa um legado singular na democracia portuguesa: o de um Presidente simultaneamente mediático e tático, emocional e calculista, cuja marca pessoal redefiniu a forma de exercer a magistratura de influência em Portugal.

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